sábado, 28 de janeiro de 2012

O Brado Retumbante: A Sindicalista e a Primeira-Dama

Agora em meados de abril. meses depois de haver concluído o post abaixo, vi que preciso comentar algo...


      As imagens de cima são da minissérie da qual vou falar. As de baixo são de Aécio Neves (PSDB)! É calro que qualquer semelhança não é mera coincidência. Mesmo se levarmos em conta a afirmação de Montagner de que não se inspirou em nenhum político real para compor seu personagem.
Veja aqui onde encontrei a imagem no Facebook.

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Amigos, escrevi esse post em um impulso, e quiz publicar antes que a minissérie deixasse de estar fresca na memória das pessoas. Acho que ficou muito denso. No próximo post vou procurar dar um ritmo melhor. 
    
    Estive vendo ultimamente a minissérie O Brado Retumbante da Rede Globo, escrita por Euclides Marinho. Me interessei logo que vi as primeiras chamadas pois trata de um dos meus assuntos favoritos: política. Ela basicamente conta os conflitos políticos e pesoais de um deputado que devido a morte inesperada do presidente e do vice, acaba se tornando chefe do executivo de uma hora para outra. Embora tenha conflitos familiares e muitos casos extraconjugais, Paulo Ventura (Domingos Montagner) era honesto, não abria mão de seus ideais e combatia a corrupção. Porém não esperava muito da minissérie, logo que é da Globo e conheço a linha política da emissora. Teve algo porém que me chamou particularmente a atenção, sobre o qual me proponho a falar agora.
    Em um dos episódios da primeira semana (vídeo acima), a primeira dama D. Antônia (Maria Fernanda Cândido), recebe de um colega professor um pendrive. Nele havia a versão virtual de um livro didático distribuído nas escolas. Aos 9:00 min Antônia aparece lendo o livro em questão. Ela se apavora com afirmações como "A devastação de terras no Brasil começou no século XVI com a colonização portuguesa capitalista e predatória." e "10% do território nacional pertence aos descendentes dos quilombolas, vítimas e heróis da escravidão no Brasil." Junto a essas, a primeira-dama lê o diparate "Tiradentes, o mártir agrário da Inconfidência Mineira foi um precursor do Movimento dos Sem Terra.", ao qual ela iguala em grau de absurdo as duas afirmações anteriores. E serão essas citações anteriores  absurdos mesmo?
    Então vejamos: Sobre a primeira afirmação. Logo que os portugueses chegaram ao Brasil no século XVI, sua grande atividade foi extrair pau-brasil, que era muito valorizado na Europa para a fabricação de tintura vermelha para tecidos. Embora não possamos falar em devastação strictu sensu, visto que a extração era feita com métodos e instrumentos muito rudimentares, não podemos negar que a extração foi indiscriminada. Tempos depois, nossas terras foram desmatadas e esgotadas por grandes extensões de Plantation de cana-de-açúcar.
    A afirmação se proveita também de que soa mal para o senso comum afirmar que a expliração foi "capitalista e predatória". Mas de fato foi o nascente capitalismo, a necessidade de acumular metais preciosos e ter uma balança comercial favorável que fez com que Portugal explorasse suas colônias. Pode-se argumentar que naquela época o capitalismo ainda não estava desenvolvido. E realmente, ainda não estava. Mas já estava em gestação, convivendo com o escravismo e com os últimos suspiros do absolutismo.
    Sobre a segunda afirmação("10% do território nacional pertence aos descendentes dos quilombolas, vítimas e heróis da escravidão no Brasil."). Os quilombos foram a mais contundente forma da resistência dos escravos no Brasil, e as terras ocupadas por eles devem ser devidamente respeitadas e sua posse deve ser dos descendentes. Vemos vários casos de desrespeito dessas terras por causa de especulação imobiliária, por exemplo. Talvez a porcentagem de 10% esteja exagerada, o que é mais um sinal do discurso tendencioso que a minissérie traz.
    Óbvio, porém, que a afirmação de que Tiradentes foi precursor do MST foi a mais disparatada. Para reforçá-la, em certo momento do capítulo, um parlamentar favorável á distribuição do livro didático em questão, aparece falando que não duvidava “que Tiradentes fosse precursor do MST, afinal ele morava em um acampamento (!)”.
    O segundo momento crítico do capítulo, se dá aos 28min 20s do vídeo acima, quando D. Antônia aparece conversando com a autora do livro. Anteriormente seu colega que lhe passou o pendrive lhe disse que Neide Batalha (a autora) havia virado uma fábraca de livros didáticos. Que publicava livros de muitas matérias diferentes sob pseudônimos e que era dona de um grande patrimônio, de milhões de reais. Nega-se nesse enredo que quem realmente lucra com a publicação de livros no Brasil são as editoras e não seus autores.
   Na conversa, há mais uma pérola sobre o suposto conteúdo dos livros de Neide. Antônia demonstra achar um absurdo que Neide tenha defendido a idéia de que “não existe certo ou errado na língua portuguesa.” Neide responde “Não existe mesmo. Aquilo que vocês chamam de certo e errado é um instrumento de dominação das elites. É preconceito linguístico.” Essa discussão é bastante presente na área de letras, mas apenas chegou á mídia depois que um livro distribuído pelo MEC defendeu que não seria um erro dizer “os peixe” em uma conversa informal. Esse livro, que apresenta uma reflexão bastante sutil sobre o certo-e-errado soou como uma grande novidade pois a gramática tradicional sempre dominou o ensino. E muito ao contrário do que se pensa, isso não representa desleixo no ensino da língua portuguesa. Representa sim uma maior reflexão sobre o que se aprende e sobre uma forma (que nem sempre se identifica) de opressão por classe social. Por exemplo: é fácil e convincente dizer que não se vai dar emprego a alguém pq a pessoa “fala errado” (as vezes apenas não põe o plural nos substantivos, coisa que a maior parte dos brasileiros faz). Provavelmente se a pessoa a faz é porque veio de um meio social com menos acesso a leitura, onde “erros” como esses são mais comuns. Detalhe: esses livros nunca ensinaram que os alunos escrevessem errado. A língua escrita necesita ser pelo menos um pouco mais conservadora do que a falada para que as diferentes regiões do Brasil possam entendê-la. Sabemos que a língua falada varia muito de uma região para outra.
    Ainda no diálogo, Neide diz a Antônia que “boa parte do seu dinheiro vai para o partido”. Forma senso-comum de criticar as organizações que apóiam a luta sindical. Isso surfa de forma oportunista no sentimento antipartidário, herdado de nossa história de corrupção na política, que faz com que as pessoas pensem que os partidos vivem de corrupção e de aparelhamento das entidades representativas.
    Que fique claro que não estou concordando com os crimes cometidos pela personagem Neide, mas questiono se o conteúdo dos livros é “ideológico e panfletário” como disse Antônia em certo momento. Também vou expor o quanto acho tendenciosa a construção da personagem. Neide era uma sindicalista que, depois da morte do marido, passa a escrever livros didáticos de matérias demais para o humanamente possível ,por pseudônimos “para se sustentar, como última alternativa”, como diz na conversa com Antônia. Neide fica riquíssima om esses livros. Que sindicalista faz isso??? Os sindicatos têm por objetivo lutar pelos direitos dos trabalhadores. O enfrentamento de sindicatos de professores com governos estaduais e municipais é um fato. Tivemos um bom exemplo disso há pouco tempo no Rio Grande do Sul, com a luta do aguerrido CPERS contra o novo plano de educação do estado, bastante “sucateante”, e também a favor do pagamento do Piso Nacional, que o governador Tarso Genro estipulou quando era ministro da educação e quando assumiu o governo do estado não quiz pagar. Isso é lutar pela educação. E quantas primeiras-damas trabalharam para isso? Quando uma primeira-dama teve uma ação deprendida contra os problemas da educação no Brasil?
    Por fim, quero comentar o trecho onde Neide é interrogada por jornalistas sobre suas ações e ela fala que é uma forma de combate à opressão. Então ela se descontrola quando um jornalista pergunta se ela se sentia oprimida com todo o patrimônio que tinha. (pfffff) Então fica a pergunta: é preciso ser homossexual para defender o casamento gay? É preciso ser negro para lutar contra o racismo? É preciso ser mulher para abominar a violência doméstica? É preciso ter alguma deficiência para exigir acessibilidade? E por fim: é preciso ser pobre para saber que existem desigualdades sociais? Pode-se dizer que é fácil lutar contra a pobreza sendo rico (é o que dá a entender a sequência que citei). Mas se alguém rico doar tudo o que tem e virar pobre por opção não vai diminuir a pobreza no mundo ou criar a igualdade. Claro que a luta contra a opressão vem e virá, de fato, das classes oprimidas. Mas não se deve deslegitimar a luta contra a opressão, mesmo que ela não venha de alguém oprimido, mas que tem consciência e trava uma batalha séria contra as injustiças.
    Repito que não concordo com as atitudes da personagem Neide, mas questiono sua construção e o fato de serem tratadas como disparates algumas citações de livros seus. Isso tudo demonstra o que a emissora quer que pensemos dos sindicalistas e do questionamento de certos pontos da história do Brasil (além da questão linguística). Creio que devemos defender uma educação crítica, e para que seja de qualidade de fato, defender os direitos dos profissionais que se ocupam dela.  

sábado, 22 de outubro de 2011

Oficina de Acessibilidade


Amigos, gostaria de convidá-los para a Oficina de Acessibilidade da Chapa 1 É Primavera (DCE UFRGS 2011). Além da ANEL, entidade que eu construo, compor a chapa, os colegas se mostraram bastante atenciosos e receptivos as minhas propostas, já costumeiras, sobre acessibilidade. Ano que vem haverá a rediscussão da política de cotas da UFRGS, o que demonstra que a hora é agora para se conseguir cotas e dar o primeiro passo para a inclusão dos estudantes com deficiência na Universidade.

O QUÊ? Oficina de Acessibilidade

COMO? Dinâmica de simulação da deficiência

QUANDO? Dia 27 de outubro, quinta feira, 17:00

ONDE? Em frente ao IFCH (Campus do Vale)


(Em um próximo post pretendo expor as minhas razões para compor a chapa 1)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Antônio Prata "O Peter Pan era um idiota."


Quando eu tinha por volta de treze anos de idade, comprei umas duas ou três vezes a revista Capricho. Acabei não comprando mais porque ali se falava basicamente em roupas e produtos caros demais para a minha situação financeira, seriados que eu nunca vi pois não eram da TV aberta e bandas que eu não curtia pois os poucos amigos que eu tinha na época não influenciavam meu gosto musical. Tipo, enquanto as minhas amigas escutavam KLB e Guns'n Roses eu escutava Legião Urbana (que comecei a ouvir pq meu ator preferido disse que gostava numa entrevista), Sandy e Junior, a trilha sonora da Malhação e música gauchesca. Mas algumas entrevistas, relatos e colunas me marcaram bastante. A que mais marcou, de longe foi a coluna do Antônio Prata que segue.


O PETER PAN ERA UM IDIOTA

Alguma vez já aconteceu com você de aquela tia chata apertar a sua bochecha e dizer, empolgadíssima: “Aproveita, menina! Aproveita porque essa é a melhor fase da vida! E passa tão depressa! Aproveita!”?Eu lhes digo sem apertar a bochecha: fiquem tranqüilas. Não dêem bola. Por vários motivos. Em primeiro lugar: se alguém aperta a bochecha do próximo(ás vezes nem tão próximo assim...), achando que está agradando, é mais do que óbvio que esse alguém não sabe patavinas sobre a vida. Mas há mais coisas na frase da tia.Há uma fantasia dos adultos sobre a infância e a adolescência. Talvez essa fantasia surja de adultos infelizes que, não vendo muita perspectiva em melhorarem no futuro, acabam pintando o passado com as cores mais contentes, como quem diz: “Ah! Pelo menos na juventude eu fui feliz!” Lá pelos meus 15 anos, sendo nerd exemplar, de óculos e aparelho nos dentes, eu me lembro de ficar angustiado, pensando: está passando! E eu não estou aproveitando! Não saio de role em conversíveis com mulheres gostosas, como nas propagandas de Campary, não faço trilhas selvagens de mountain bike como nas propagandas de Gatorade, nem derreto corações tocando sax como nas propagandas de Free. E vai acabar o prazo, eu não terei aproveitado, já serei adulto e tudo será chato!Pois tenho a honra de lhes dar uma ótima notícia: do alto (alto?!) de meus 24 anos, posso dizer que na idade adulta também há lugar para a felicidade! E muito! Não faço trilhas de mountain bike ,não toco sax nem tenho um conversível, mas tenho uma namorada que amo (e que, se for verdade o que me diz, me ama também), moro sozinho, nunca mais tive que decorar formúlas de química, ganho meu próprio dinheiro e, quando deixo a toalha molhada em cima da cama, sabe o que acontece? Nada! Claro, a minha vida dos 13 aos 20 foi mais difícil do que a do Rodolfinho, por exemplo, um cara da minha classe que era bonitinho, rico, jogava bola pra caramba e cantava bem. Mas eu aposto que, cada Rodolfinho,devem existir uns 15 Antonios (e Antonias) que não fazem a metade do que eles fazem e se angustiam. Por isso, minhas caras, se a vida não está a melhor coisa do mundo neste momento, fiquem tranqüilas. Tem tempo para tudo. As oportunidades batem, sim, muito mais do que uma vez á sua porta.

(Antonio Prata)


Além de gostar bastante da forma ágil e acessível como o colunista se expressa, me identifico com as coisas que ele diz. Quando eu era adolescente sentia uma angústia muito grande por não saber como seria a minha vida. Não sabia se haveriam possibilidades para mim, por exemplo: poderia eu, uma menina da escola pública passar no vestibular de uma faculdade Federal? Será que eu poderia escrever e publicar ou teria de dar duro o dia inteiro num trabalho cansativo e não teria tempo de escrever? Será que eu conseguiria ter amigos, me sentir pertencente a um grupo algum dia ou será que era verdade quando os meus colegas bullies me diziam que eu era ridícula, chata, que ninguém se interessaria pelos meus assuntos? Será? Será? Será? Bem, a vida me deu algumas respostas. No ano em que eu estava estudando pro vestibular os estudantes tomaram a reitoria da UFRGS exigindo a implantação da política de cotas. Era direito meu, facilitou minha entrada na universidade. Conheci então o pessoal do movimento estudantil. Foi ótimo pra mim, que já era interessada em política. Ali encontrei um grupo digno de uma música do Legião Urbana chamada vamos fazer um filme (o sistema é maus, mas minha turma é legal) e vi que eles tinham muito em comum comigo. E com relação à escrita, na falta de uma editora vai um bloguinho mesmo. Quanto ao meu Futuro profissional com F maiúsculo, estou lutando pelo que eu quero. Não estou negando a influência do sistema na minha vida, mas hoje me sinto mais agente da minha própria vida, menos dependente da minha família. E me sinto feliz por, tanto no programa onde sou bolsista quanto na militância no movimento estudantil estar procurando construir um mundo mais justo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Culpa Desnecessária

Esta é a CEU, a Casa do Estudante Universitário da UFRGS, na João Pessoa.

-Oi Lia. -Disse a mãe, chegando do trabalho.
-Oi mãe. Vai ficar ocupada agora?
"Você vai me ouvir! Vai me ouvir! Eu consegui o que queria, mãe. Você não vai me impedir."
-Não.
"É agora!"
-Preciso conversar com você. Bem mãe, eu passei no vestibular... Eu QUERO fazer a faculdade.
"Eu vou ir atraz do que eu quero. Eu PASSEI no vestibular. Agora posso ir atraz do meu sonho."
-Como Lia? Vai se teletransportar para Porto Alegre todo o dia?
"Para que ser irônica, mãe? Não faça eu me irritar com você."
-Eu voi ir morar lá, mãe.
"Você vai ter de aceitar isso."
-Isso até tem graça, Lia.
"Será que você não engole que eu vou sair um dia do seu controle? Será que você não aceita que eu conquiste a minha liberdade?"
-Eu posso ficar numa casa de estudantes.
"Eu já me informei sobre tudo. Eu sei o que devo fazer."
-E quem vai cuidar de você, Lia?
"Se você continuar intransigente vou ter de fazer o que preciso sem a sua permissão. Mas no fundo, eu gostaria que você me entendesse."
-Eu sei me cuidar sozinha, mãe.
"Mas eu queria era que você me apoiasse. Mas não vou dar para traz."
-Bem, suponhamos que você saiba se cuidar sozinha: como fico eu aqui, Lia?
"Mãe, eu não vou cair nesse seu jogo. Eu não posso! Não posso! Eu gosto muito de você, mãe. Mas não vou me deixar levar mesmo que eu morra de culpa depois."
-Ah, não faz chantagem, mãe.
"Você está sendo muito cruel. Está tentando provocar uma culpa desnecessária, que não se justifica..."
-Não é chantagem, Lia. ocê é minha única filha.
"Se você não teve mais filhos foi por que não quiz. E você sabe se cuidar sozinha."
-Mas eu não vou desistir do meu futuro, mãe!
"Eu não posso restringir a minha vida a essa cidadezinha onde não tenho chance de progredir. Eu tenho capacidade, posso desenvolvê-la. Quero estudar!"
-Esse assunto morreu aqui, Lia. Você vai ficar morando aqui comigo e vai cuidar de mim assim como eu cuidei de você quando você era pequena.
"Você está me forçando a fazer algo que eu não quero, mãe. Eu vou estudar em Porto Alegre. Eu vou atraz do meu sonho."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Névoa Branca


Fazia frio dentro de mim.
Algo me incomodava, me fazia ficar desesperada...
Lá fora, tudo continuava terrivelmente impessoal. Injustiças acontecendo sempre. Competição. Pessoas afastadas, umas contra as outras... Só a união mudaria isso. Mas a situação não favorecia a união. Círculo vicioso.
Era nesse mundo que eu procurava meu lugar, meu papel. Não encontrava. Eu estava pensando nisso.
O frio de dentro de mim começou a tomar volume, não parava de aumentar. Uma névoa começou a escapar de meu interior, como água branca de cloro quando derramada.
Essa névoa crescia, se alimentava do frio de dentro de mim. Me envolvia, cada vez mais densa. Lentamente começou a me sufocar.
Tentei aplacar aquele frio. Em vão! O mundo lá fora não emanava calor. O frio não morava apenas no meu interior. O que eu poderiafazer? A névoa continuava a crescer e a me envolver. Era muito maior do que eu. Eu chorava. Acreditava que o mundo impessoal era a causa do meu desespero. Acreditava-me pequena e fraca. Mais do que isso: incapaz. Então ouvi: "Seja forte." Achei que era uma alucinação. Era uma voz grave e bonita que me falava. "Seja forte." Ouvi novamente. Fiquei bastante confusa, mas a névoa pareceu perder um pouco da desnsidade. Parecia que a simples possibilidade de alguém estar me ouvindo diminuiu o frio de dentro de mim. "Essa névoa não irá deixá-la em paz enquanto houver frio dentro de você." "E como faço para me esquentar? O frio está por toda parte." "Pense em algo que dê calor." "Mas o que...?" "Rápido! Senão a névoa volta a crescer." Me disse a voz com urgência. Do nada, comecei a recitar um poema de Bandeira. A névoa ficou mais tênue. "Isso! Continue!" Emendei uma de Drummond. A névoa diminuiu. Continuei por mais algum tempo. Aquela voz sempre me lembrava de que estava me ouvindo. Depois de algum tempo de luta a névoa desapareceu por completo. "Você sempre me ouve?" "Sim pois passei por algo semelhante." "Onde você está?" "Dentro de você." "Como você pôde me ajudar?" "Porque você permitiu." "O que devo fazer para vencer a névoa?" "Pode ser recitando. Mas dev ser algo de que você goste muito. Se não resolver, coloque uma música e cante. E se concentre na canção..."Mas como você sabia o que fazer?" "Eu também sentia frio dentro de mim. Muitas vezes a névoa tentou me sufocar e não conseguiu. Sempre que ela surgia eu cantava. Mas certa vez não consegui controlá-la, então ela me consumiu..." Fiquei espantada! "No entanto muita gente me viu cantar. E minha voz ficará para sempre dentro deles."
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"Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios” (Yoñlu)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Te desejo um final feliz, Escola Santa Rita


Eu gosto de falar em Educação. E estou particular preocupada com algo que está acontecendo em Gravataí.
Estão querendo fechar minha saudosa Escola Mun. Santa Rita.
Desde a época em que eu estudava lá haviam boatos de que a prefeitura estava tentando se livrar da escola. Queriam passá-la para o estado, afinal a escola tinha ensino Fundamental e Médio e o Município só é responsável pelo Fundamental. Claro que empurrar uma escola para o Estado assim não é nada fácil. Agora a prefeitura resolveu mudar de tática.
Há algum tempo fui surpreendida com um recado da minha ex professora no orkut. A Sora contava que queriam entregar o prédio da escola para o governo federal para que lá funcionasse uma Escola Técnica. A comunidade, que sempre foi o grande motor daquela escola, reagiu dizendo que havia a possibilidade de se construir o prédio da Escola Técnica no pátio da escola. E é verdade. Me lembro que o pátio era enorme e a maior parte do mesmo não era nem aberta para os alunos no recreio. Não há a nece4ssidade de fechar a escola.
Mas recentemente, assistindo ao vídeo da ANEL sobre a Audiência Pública que houve na Câmara municipal de Gravataí, descobri que a Diretora foi até Brasília e obteve do Ministério da Educação a informação de que ainda não foi decidido se a Escola Técnica Federal irá mesmo para Gravataí. E que se realmente for, será construído um prédio navo para seu funcionamento. Ou seja, se fecharem o Santa Rita será para que nada mais funcione lá.
No Santa Rita estudam cerca de 1700 alunos. Em caso de fechamento, esses alunos serão mandados para outras escolas municipais, e terão de atravessar a "faixa" (Av. Dorival Cândido Luz de Oliveira) para estudar todos os dias. Me lembro que quando eu era pequena, um garoto que ia para escola foi atropelado ao atravessar a Faixa. Fizemos uma manifestação. Foi também uma forma de pressionar a Prefeitura para que entregasse o prédio novo da escola (esse mesmo que hoje querem fechar). O prédio antigo tinha um valão que cortava o pátio, o que era perigoso para os alunos, e corria risco de desabamento. Devemos lembrar também que os pais de muitos alunos não dispõe de tempo para levar os filhos à escola. Precisamos evitar que outros acidentes assim aconteçam.
A prefeitura sempre gostou de se vangloriar de ter uma escola de ensino Médio. No entanto, quando houve a mudança da Escola (em agosto de 1998) foram os professores e um caminhão cedido por uma transportadora que gentilmente levaram os móveis, arquivos e etc. para a escola. A comunidade foi quem sempre esteve, junto com alunos e professores, tocando a escola. Havia um forte clima de democracia, todos éramos ouvidos. A diretoria era bastante aberta. Tínhamos assembléias trimestrais onde fazíamos reivindicações e, em geral, éramos atendidos. As aulas eram críticas, haviam discussões. Era uma escola que essencialmente formava cidadãos.
E a postura da prefeitura nisso tudo foi bastante autoritária. No dia da audiência mandou CCs levarem faixas de apoio ao fechamento da escola! Não quis ouvir a comunidade do Santa Rita. Mas muitas pessoas lotaram a Câmara e demonstraram a verdadeira opinião da comunidade.
Como estou morando em Porto Alegre, não tenho podido acompanhar de perto a "evolução desse quadro". Mas fiz esse post no blog e coloquei no meu perfil no orkut, estou tentando militar à distância. Estou na torcida para que tudo isso tenha um final feliz.

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma Gota de Esperantoso


Aí vai meu último conto. Peço perdão, escrevi as pressas com medo de acabar não escrevendo. A inspiração foi esse post do blog Contos do Léo, que eu recomendo que leiam para entender melhor o meu conto. Recomendo o blog como um todo também.

Como em Plantaverde poucos sabiam Esperantoso e os editores que publicavam nesse idioma faziam questão de publicar aos montes, achando que assim todos passariam a querer aprender o idioma, os livros em Esperantoso eram baratos.
Gota quis. Sozinha estudou Esperantoso porque gostava de livros, que no idioma nativo eram muito caros.
E a Gota adorava também a idéia do Esperantoso de unir todos os mundos.
Sua pronúncia ficou perfeita. Sua escrita também. Compreendia mesmo as formações sintáticas mais complicadas. Compreendia o que o escritor quis transmitir mesmo com as aliterações mais peculiares do Esperantoso e adorava reparar diferenças de estilística e estética.
Mas o prblema maior a língua por si só não resolvia. Ela sabia que quase todo mundo ganhava pouca plantaverde trabalhando muito para meia dúzia de seres ganharem demais quase sem trabalhar.
Se a maioria trabalha muito, não chega a ler e por vezes nem a sentir.
Assim, as aliterações, metáforas, antíteses, prosopopéias ficavam bem longe do cotidiano. Seus pais diziam pra arranjar logo um trabalho, sem tentar estudar pra ser professora de Esperantoso como ela queria. Mas se não era pra poder se emocionar um pouco, para que a vida servia? Ela queria ensinar isso. Mas o mundo era tão mecânico...
Certa vez, Gota estava na praça da Coruja, onde os jovens que estudavam E
sperantoso se reuniam para conversar nesse idioma. Apareceram umas pessoas com umas idéias bem malucas. Um projeto de haver salário de 10 quilos de plantaverde para todos no fim do mês. Mas para isso todos precisariam se unir, para criar uma sociedade onde todos poderiam estudar, trabalhar no que quizessem sem pressão, ler, e viver a literatura da vida.
Será que se desse certo ela poderia ensinar seua alunos a viver com aliterações, metáforas, antíteses, prosopopéias? Será que ela poderia transformar a vida das pessoas em um texto um pouco mais rico do que um lista de compras???
E começou a trabalhar para isso. Conversava com um. Depois com outro. Quase ninguém a entendia. Mas aqueles que deram ess idéia à Gota a incentivavam...
Todos dos arredores sabiam quem era a Gota. Sabiam de suas idéias malucas. Sabiam que ela não era muito normal.
Um dia o prefeito baixou o salários dos professores para um quilo e meio de plantaverde. Gota e seus amigos de idéias malucas levaram tampas de panela e colheres para fazer barulho na frente da prefeitura. Os guardas atiraram raios de calor paralizante de cor alaranjada viva para conter os malucos que ousavam
atrapalhar o trabalho do senhor prefeito, que recebia vinte quilos de plantaverde de salário por mês mais benefícios. Nessa hora, Gota entrou em ebulição e virou vapor.
Até hoje não se sabe se Gota virou vapor por causa dos raios ou se foi sua animação na luta pelo que acreditava que a fez ferver. O que se sabe é que depois da primeira chuva que caiu após aquele dia todos começaram a ouvir com maior interesse os malucos que defendiam as mesmas idéias que Gota. Afinal, idéias não evaporam com facilidade.

Intersecções entre as obras de Vigotski e Luria e a obra de Trotsky

 Vigotsky, Luria e Trotsky. Principais pontos de intersecção 1. A concepção do novo homem socialista Trotsky: Em "Literatura e Revoluçã...