sábado, 16 de maio de 2026

Intersecções entre as obras de Vigotski e Luria e a obra de Trotsky

 Vigotsky, Luria e Trotsky.


Principais pontos de intersecção

1. A concepção do novo homem socialista

  • Trotsky: Em "Literatura e Revolução" (1923), Trotsky propõe a concepção do novo homem socialista — um ser humano que se transformará radicalmente, dominando seus próprios processos inconscientes, elevando seus instintos à consciência e criando "um tipo biológico e social superior".
  • Vigotsky: Foi diretamente influenciado pela concepção trotskista do novo homem . Em janeiro de 1924, Vigotsky anunciou publicamente sua "Ciência do Novo Homem", interpretando a concepção de Trotsky como um chamado para criar uma nova psicologia que estudasse essa transformação humana.

2. Materialismo dialético e psicologia marxista

3. Otimismo revolucionário sobre a natureza humana

  • Ambos rejeitam determinismos biológicos conservadores
  • Vigotsky e Luria (1925) escreveram uma introdução a Freud argumentando que o "conservadorismo dos instintos" poderia ser superado através da "transformação social radical" em curso na Rússia
  • Trotsky sustentava que a humanidade não deveria "capitular diante das leis obscuras da hereditariedade"

4. Contexto histórico comum: Revolução Russa de 1917

  • Vigotsky desempenhou papéis importantes aconselhando o novo governo soviético após 1917
  • Ambos trabalharam no Departamento de Educação Pública da Rússia revolucionária
  • A psicologia soviética emergiu nesse contexto de "psicologia revolucionária"

Autores que apontam esses temas em comum

1) Anton Yasnitsky — Historiador da psicologia que documenta explicitamente a influência de Trotsky em Vigotsky:
- Mostra que Vigotsky "chegou ao marxismo através... de seu conhecimento com a concepção de Leon Trotsky do novo homem"
- Publicou "Vygotsky's Science of Superman" detalhando essa conexão
- Escreveu "Funciones superiores y psicología de cumbres: Vygotski (ab)usa (de)a León Trotski y Friedrich Nietzsche"

2) Shirley Franklin — Em resenha do livro "Vygotsky and Marx: Toward a Marxist Psychology", destaca o compromisso de Vigotsky com a revolução e sua psicologia marxista

3) Ian Parker — Em "Psicologia Revolucionária de Lev Davidovich Bronstein" (Trotsky), conecta teoria psicanalítica e marxista com a teoria de Trotsky para uma política revolucionária

4) Carl Ratner & Daniele Nunes Henrique Silva (editores) — Em "Vygotsky and Marx: Toward a Marxist Psychology" (2017), exploram explicitamente o marxismo no trabalho psicológico de Vigotsky

5) Michael Cole — Pesquisador fundamental da psicologia sociohistórica que contextualiza Vigotsky no marxismo revolucionário soviético

Resumo

A intersecção central é a perspectiva da transformação radical do ser humano através da revolução socialista: Trotsky forneceu a concepção política/filosófica do novo homem socialista, enquanto Vigotsky e Luria desenvolveram a ciência psicológica para estudar e implementar essa transformação, criando a teoria sócio-histórica/cultural como uma "psicologia marxista" revolucionária.

Texto gerado com auxílio de Inteligência Artificial. 

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Referências

FRASER, A.; YASNITSKY, A. Deconstructing Vygotsky's victimization narrative. Toronto: University of Toronto, 2015. Disponível em: http://individual.utoronto.ca/yasnitsky/texts/Fraser%20&%20Yasnitsky%20(2015).pdf. Acesso em: 16 maio 2026.

International Socialism. Revolutionary psychology. 2019. Disponível em: https://isj.org.uk/revolutionary-psychology/. Acesso em: 16 maio 2026.

MARXISTS INTERNET ARCHIVE. Lev Vygotsky – Soviet Psychology. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/vygotsky/. Acesso em: 16 maio 2026.

RATNER, C.; SILVA, D. N. H. (org.). Vygotsky and Marx: toward a Marxist psychology. 2017. Disponível em: http://individual.utoronto.ca/yasnitsky/texts/Yasnitsky_2020_MarxistPsychology_bookPreview.pdf. Acesso em: 16 maio 2026.

TROTSKY, L. Literatura e revolução. 1923. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/trotsky/works/literature/. Acesso em: 16 maio 2026.

VYGOTSKY, L. S. Concrete human psychology. 1929. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/vygotsky/works/1929/concrete-psychology.pdf. Acesso em: 16 maio 2026.

VYGOTSKY, L. S. Soviet Psychology: The socialist alteration of man. 1930. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/vygotsky/works/1930/socialism.htm. Acesso em: 16 maio 2026.

YASNITSKY, A. Vygotsky's Marxism: A 21st Century Leftist Bolshevik Critique (The June Theses). Toronto: University of Toronto, [2015?]. Disponível em: http://individual.utoronto.ca/yasnitsky/texts/VygotskyBolshevikCritique.pdf. Acesso em: 16 maio 2026.

YASNITSKY, A. Vygotsky's science of Superman. In: . From Utopia to Concrete Psychology. 2015. p. 1–20. Disponível em: https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781351060639-1/vygotsky-science-superman-anton-yasnitsky. Acesso em: 16 maio 2026.

YASNITSKY, A. Funciones superiores y psicología de cumbres: Vygotski (ab)usa (de)a León Trotski y Friedrich Nietzsche. Disponível em: http://individual.utoronto.ca/yasnitsky/. Acesso em: 16 maio 2026.

PARKER, I. Psicologia Revolucionária de Lev Davidovich Bronstein. 2024. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7005697. Acesso em: 16 maio 2026.

TRAVASAROS, A. Vygotsky: A Marxist analysis of the crisis in psychology. Culture & Psychology, v. 30, n. 4, 2024. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1354067X231204303. Acesso em: 16 maio 2026.

IACOVINO, L. Vygotski e Leontiev: ressonâncias de um passado. Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, p. 613–630, maio/ago. 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cp/a/vxFh6xssTzcjXwNKqKWtTvG/. Acesso em: 16 maio 2026.

SARTINI, B. C. Da ética marxista à psicologia vigotskiana. 2014. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/31708/3/EticaMarxistaPsicologia.pdf. Acesso em: 16 maio 2026.



quinta-feira, 14 de maio de 2026

Carta de Leon Trótski a Lev Vigotski

Coyoacán, México, 1933 (pouco antes da morte de Vigotski)

Meu caro Lev Semiónovitch,

Escrevo-lhe sabendo que esta carta pode nunca chegar às suas mãos, e que, se chegar, lê-la pode lhe custar caro. A burocracia stalinista não perdoa correspondências com seus inimigos declarados. Mas arrisco. Pois tenho acompanhado, à distância, seus trabalhos — e sinto que há entre nós algo mais do que uma coincidência de temas. Há uma afinidade de método.

Você não me conhece pessoalmente. Eu, no exílio, tenho lido o que posso de sua obra — Psicologia Pedagógica, Psicologia da Arte, os artigos sobre defectologia. E preciso lhe dizer: você está fazendo, no campo da psicologia, o que tenho tentado fazer no campo da política. Não me refiro a conclusões idênticas — pois cada ciência tem suas mediações específicas —, mas a um modo de aplicar o materialismo dialético que os burocratas de Moscou jamais compreenderão.

O que vejo em sua obra

Os stalinistas reduziram o marxismo a um evolucionismo raso: tudo se desenvolve por estágios previsíveis, tudo é determinado "pelas condições materiais" como se fossem correntes. Eles esvaziaram a dialética de sua alma: a contradição, o salto, a compressão do tempo.

Você, ao contrário, compreendeu algo fundamental. Quando fala da zona de desenvolvimento iminente — aquilo que a criança ainda não pode fazer sozinha, mas já pode fazer com ajuda —, você está descrevendo exatamente o que eu chamo de revolução permanente. O futuro não vem depois, numa sucessão mecânica. Ele já se anuncia no presente, como uma contradição entre o que se é e o que se pode vir a ser. A ajuda externa — o professor, o instrumento cultural, a linguagem — é a vanguarda que puxa o desenvolvimento, assim como o partido revolucionário puxa a classe trabalhadora.

Os stalinistas querem uma psicologia de reflexos condicionados, como Pavlov. É mais fácil controlar um cachorro que saliva do que um ser humano que pensa. Você, ao contrário, colocou a linguagem no centro. E a linguagem é o instrumento dos instrumentos — é ela que permite ao homem mediar sua relação com o mundo e consigo mesmo. Pois bem: isso é profundamente marxista. Marx dizia que o homem se diferencia do animal quando começa a produzir seus meios de vida. Você acrescenta: e também quando começa a produzir significados. E eu acrescento: a revolução socialista é exatamente o momento em que a humanidade toma consciência de sua própria produção histórica e decide produzi-la de forma racional e livre.

Nossas diferenças, que não nos separam

Não quero que pense que vejo apenas concordâncias. Haveria, em uma conversa franca, pontos de tensão.

Você, me parece, deposita enorme fé na educação como força transformadora. Eu, tendo visto a burocracia tomar conta das escolas e transformá-las em aparelhos de doutrinação, sou mais cético. A educação não é neutra, mas também não é autossuficiente. Sem uma transformação radical das relações de produção, a melhor pedagogia se torna servil ao Estado burocrático.

Outra diferença: você confia na mediação pacífica do desenvolvimento — a criança avança com ajuda, gradualmente. Eu, na política, vejo que as classes dominantes não cedem espaço voluntariamente. A revolução é violenta não porque amamos a violência, mas porque a classe dominante a impõe como única resposta à nossa organização. A zona de desenvolvimento iminente, na luta de classes, se chama greve geral, insurreição, guerra civil.

Mas essas diferenças são de campo de aplicação, não de método. Você estuda o indivíduo em desenvolvimento. Eu estudo a sociedade em revolução. Em ambos os casos, a pergunta é: como o novo emerge do velho, não por acúmulo gradual, mas por salto qualitativo? E em ambos os casos, a resposta envolve um instrumento que faz a mediação: para você, a linguagem e os signos; para mim, o partido revolucionário e a teoria crítica.

O segredo que já não posso calar

Preciso lhe dizer algo que os arquivos, um dia, confirmarão. Eu sei que você me citou em seus primeiros trabalhos. Em Psicologia da Arte, há uma passagem longa de Literatura e Revolução — aquela sobre o homem tornar-se senhor de seus próprios sentimentos. Você a citou com aprovação. Sei também que, nas edições mais recentes sob censura stalinista, essas citações desapareceram. Não se culpe por isso. Sobreviver para continuar o trabalho não é covardia. É estratégia.

Mas quero que saiba, mesmo que nunca possa responder a esta carta: sua obra é, para mim, a prova de que o marxismo não é um sistema fechado. Os burocratas querem fórmulas prontas. Você, como eu, quer problemas abertos. Eles querem um homem-máquina, previsível, administrável. Você quer um ser humano que se apropria dos instrumentos culturais e, ao fazê-lo, se torna capaz de transformar o mundo e a si mesmo.

Isso é revolucionário. Mesmo que você nunca diga isso em voz alta.

O que lhe peço, ao fim

Não responda a esta carta. Queime-a, se for preciso. Mas guarde uma coisa no coração: não estamos sozinhos. A história tentará nos separar — a você, como psicólogo "apolítico"; a mim, como "inimigo do povo". Mas o método dialético é teimoso. Ele floresce onde menos esperam.

Continue seu trabalho, camarada. A psicologia que você está construindo será, um dia, o complemento necessário da revolução política. Pois de que adianta transformar as fábricas e os sovietes, se dentro do peito humano ainda habita o velho homem, com seus medos, suas submissões e seus afetos domesticados?

Você está plantando sementes em solo congelado. Mas o degelo virá.

Com fraterno abraço de luta,

L.D.

Coyoacán, 14 de maio de 1933

P.S. — Luria me contou, por meio de um visitante comum, que você está doente. A tuberculose é uma peste que a revolução também precisará vencer. Mas enquanto não vencemos, peço-lhe: sobreviva. Sua obra precisa de você. A história precisa de você. E eu, do exílio, preciso saber que não sou o único a acreditar que a dialética pode habitar até mesmo os becos mais escuros da mente humana.

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Carta fictícia, elaborada com auxílio de I.A. 

Carta de Lev Vigotski a Leon Trotski

Sanatório Serebryanii Bor,  Moscou, 1932

Camarada Trotsky,

Li seus textos com a atenção de quem sabe que cada palavra, em nossa época, pode custar a liberdade ou a vida. Mas li também com a alma de quem busca, na teoria marxista, instrumentos para compreender o fenômeno humano mais complexo: a formação da consciência.

E encontrei em você algo que os burocratas que agora controlam o partido nunca compreenderão: o movimento dialético como método vivo, e não como fórmula morta.

O que me atraiu em sua obra — e que tentei, à minha maneira, aplicar à psicologia — é essa intuição fundamental de que o desenvolvimento não é a repetição mecânica de estágios, mas sim uma compressão de tempos, um salto qualitativo onde o que parecia atrasado pode se tornar, pela força da contradição, a pedra angular do novo.

Você chamou isso de revolução permanente na política. Eu chamo, na psicologia, de zona de desenvolvimento iminente: o espaço onde o que a criança ainda não pode fazer sozinha, ela já pode fazer com ajuda, e amanhã fará por si mesma. É a mesma lógica: o futuro já se anuncia no presente, na forma de uma contradição entre o que se é e o que se pode vir a ser.

Sabe o que mais me marcou em você? Não foi apenas a ousadia política, mas algo mais sutil: você levou a sério a ideia de que a revolução deve formar um novo ser humano. Não como abstração moralista, mas como problema científico concreto. Em Literatura e Revolução, você escreveu sobre a possibilidade de o homem tornar-se senhor de seus próprios sentimentos, de estender "os fios da vontade" até os recônditos ocultos de seu ser. Quando li isso, senti que não estava sozinho.

Eu estava, naquele momento, tentando compreender como os instrumentos culturais — a linguagem, os signos — transformam a própria estrutura da psique. E você já apontava para esse horizonte: o homem não apenas transforma a natureza externa, mas, ao fazê-lo, transforma a si mesmo. É a mesma dialética.

Preciso lhe dizer algo que me dói, mas que você merece saber. Nos anos 1920, antes do exílio, citei você abertamente. Em Psicologia Pedagógica, em Psicologia da Arte, suas palavras estavam lá, como faróis. Mas hoje, em 1932, enquanto escrevo Pensamento e Linguagem já doente, com a tuberculose que a falta de condições básicas agravou, não posso mais mencionar seu nome. Se o fizer, meu trabalho será destruído, meus colaboradores — Luria, Leontiev — serão presos, e tudo o que construímos será enterrado sob o peso da burocracia.

Isso me envergonha? Não. Me enfurece. Porque aprendi com o próprio método dialético que sobreviver para continuar o trabalho não é covardia; é estratégia. A verdade não morre quando é silenciada; ela se refugia nos interstícios, esperando o momento de florescer. E florescerá. Sei disso.

Deixe-me lhe dizer, camarada, o que penso de sua obra e do que ela representa para mim:

Você compreendeu que o marxismo não pode ser um sistema fechado. Para os burocratas, tudo está resolvido: o homem é um conjunto de reflexos, a consciência é um epifenômeno, a revolução já se realizou e agora só resta administrar. Para mim, como para você, o marxismo é um método para abrir problemas, não para fechá-los. A psicologia que tentei construir parte exatamente dessa premissa: o ser humano é um projeto inacabado, e a educação — a formação da consciência — é o campo onde esse projeto se realiza ou se trai.

Você me ensinou algo sobre a relação entre indivíduo e história. O stalinismo finge que o indivíduo é nada diante do coletivo. Você, ao contrário, mostrou que a revolução só tem sentido se formar indivíduos livres, capazes de autodeterminação. É o que tento mostrar em minha obra: a consciência não é uma simples reflexo do social, mas uma interiorização — um processo ativo onde o sujeito se apropria dos instrumentos culturais e, ao fazê-lo, torna-se capaz de agir sobre o mundo e sobre si mesmo.

E há algo mais, camarada, que poucos notam. Você era judeu, como eu. E num mundo que nos perseguiu por isso, ambos buscamos no universalismo da revolução uma forma de transcender a marca que nos queriam impor. A burocracia stalinista, com seu antissemitismo disfarçado de "combate ao cosmopolitismo", jamais perdoará isso em você — nem em mim, quando ousarem me reler depois de minha morte.

Se me permite, camarada Trotsky, quero lhe fazer uma confissão final.

Há quem diga, hoje e no futuro, que minha obra pode ser lida sem referência a você. Que fui "apenas" um psicólogo soviético, um "marxista-leninista" dentro dos limites aceitáveis. Que minhas citações a você foram um acidente de juventude, depois superado.

Isso é mentira. E saberei, de onde estiver, que a verdade virá à tona.

Não porque eu ou você precisemos de reconhecimento pessoal. Mas porque a verdade científica — como a verdade revolucionária — é uma só: o desenvolvimento humano não é linear, nem previsível, nem administrável por burocratas. É um processo dialético, cheio de saltos, crises e superações. E quem compreendeu isso, na política, foi você. Quem tentou aplicar isso à psicologia, na medida de suas forças e sob a mira do inimigo, fui eu.

Que os que vierem depois — os psicólogos, os educadores, os revolucionários — saibam ler nossa obra como ela realmente é: não dois sistemas separados, mas duas faces do mesmo esforço para compreender como a dialética se faz carne na história e na subjetividade humana.

E que saibam, também, que silenciar um nome não apaga uma ideia. As ideias têm o hábito incômodo de sobreviver — e de, quando menos se espera, fazer a revolução por dentro dos próprios lugares onde tentaram enterrá-las.

Com o abraço de quem reconhece, no outro, um companheiro de trincheira,

Lev Vigotski

1932 (em um mundo onde pudesse dizer isso em voz alta)"

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Obra de ficção elaborada com auxílio de I.A.


domingo, 5 de abril de 2026

O Nascimento de Glaucípia: A Concepção nas Profundezas



O Conflito dos Opressos


Tudo começou não com amor, mas com provocação.

Poseidon, senhor dos mares e deus dos terremotos, nunca engoliu completamente o episódio em que perdeu a disputa por Atenas para Atena. A cidade seria sua, se os atenienses não tivessem preferido a oliveira da deusa à sua fonte de água salgada. O orgulho do deus ainda ardia como lava submarina.

Durante séculos, ele a provocava sempre que podia. Fazia suas estátuas tremerem com pequenos tremores. Enviava ondas gigantes que molhavam os degraus de seus templos litorâneos. E, nas assembleias divinas, jamais perdia a chance de lembrar que a "deusa da sabedoria" devia sua cidade a um voto, não à força.

Atena, por sua vez, respondia com silêncios calculados e sorrisos irônicos — o que irritava Poseidon ainda mais do que xingamentos.

Até que, um dia, Poseidon resolveu mudar de estratégia.


A Aposta no Olimpo


Durante um banquete no Olimpo, quando o néctar já soltava as línguas divinas, Poseidon ergueu sua taça na direção de Atena.

— Dizem, sábia irmã, que conheces todas as estratégias, todos os caminhos, todos os corações. Dizem que nada escapa à tua mente.

Atena inclinou a cabeça, desconfiada.

— Dizem coisas sensatas, irmão. Prossegue.

— Pois então quero te propor um desafio — disse Poseidon, com um sorriso que lembrava ondas prestes a quebrar. — Se és tão sábia quanto afirmas, saberei encontrar aquilo que nem tu mesma conheces. Aquilo que existe em ti e tu ignoras.

Os outros deuses se entreolharam. Zeus franziu o cenho, mas a curiosidade falou mais alto.

— E o que ganhas com isso, irmão? — perguntou Atena, imperturbável.

— Se eu encontrar o que procuras em ti mesma, tu me concederás um pedido. Qualquer pedido. — Poseidon inclinou-se sobre a mesa. — Se eu falhar... juro pelas águas do Estige que nunca mais mencionarei a disputa por Atenas. A cidade será tua para sempre, em paz.

Houve um murmúrio entre os deuses. Era uma aposta ousada.

Atena refletiu por um longo momento. Sua mente, capaz de prever mil desdobramentos, não encontrava armadilhas óbvias. Afinal, o que Poseidon poderia encontrar nela que ela mesma não conhecesse?

— Aceito — disse finalmente.

A Jornada ao Fundo do Ser


Poseidon não partiu para a guerra, como esperavam. Não invocou monstros marinhos nem abriu abismos.

Ele simplesmente... mergulhou.

Mas não no mar.

O deus dos oceanos conhecia as profundezas melhor que ninguém. E sabia que o oceano mais profundo de todos não era o que banhava continentes, mas o que existia dentro de cada ser. Ali, nas regiões onde a luz nunca chega, habitavam correntes que nenhum deus ousava navegar: as emoções primordiais, os sentimentos que os imortais preferiam ignorar.

Poseidon mergulhou na alma de Atena.

E foi arrastado para o abismo.

Lá encontrou coisas que a deusa da sabedoria mantinha tão escondidas que nem ela sabia que existiam: a solidão de ter nascido da cabeça do pai, sem mãe para embalar seus primeiros instantes. A mágoa antiga de ser sempre a conselheira, nunca a guerreira na linha de frente. O cansaço de carregar o peso da razão enquanto todos ao seu redor se permitiam sentir.

E, no fundo de tudo, como uma corrente quente vinda das profundezas da terra, ele encontrou algo que jamais imaginaria:

Um desejo silencioso de criar não com as mãos, como fazia com as artes e ofícios, mas com o corpo. Um anseio guardado em camadas tão profundas da psique divina que a própria Atena jamais ousara visitar.

Poseidon emergiu daquele mergulho transformado.

A Transformação do Deus


Quando reabriu os olhos diante da assembleia divina, o deus dos mares estava diferente. Havia em seu olhar algo que ninguém jamais vira: compreensão.

— Encontraste o que buscavas? — perguntou Atena, com uma ponta de apreensão.

Poseidon aproximou-se dela. Não com a arrogância de sempre, mas com uma gravidade nova.

— Encontrei, irmã. Encontrei aquilo que tu mesma ignoravas.

E, sem se importar com os outros deuses, sussurrou em seu ouvido o que vira nas profundezas da alma dela.

Atena empalideceu. Pela primeira vez em toda a eternidade, a deusa da sabedoria não soube o que dizer.

— Isso... isso não é possível — murmurou ela.

— É possível — respondeu Poseidon. — E é real. Não como pensavas, não como eu pensava. Mas é real. E eu, que passei séculos provocando-te, venho agora pedir: permite-me ajudar-te a trazer isso à existência.

O Abraço do Mar e da Mente


O que aconteceu depois, os poetas contam de muitas maneiras.

Alguns dizem que Poseidon a levou para uma caverna submarina, onde a pressão das águas profundas é tão imensa que até os pensamentos mais duros se tornam fluidos. Lá, sob a luz bioluminescente de criaturas abissais, o deus do mar ensinou à deusa da sabedoria o que era sentir sem julgar.

Outros dizem que foi Atena quem conduziu o encontro — que ela, com sua mente incomparável, encontrou uma maneira de transformar aquela corrente emocional em forma, em substância, sem jamais perder o controle que a definia.

A verdade — se é que deuses têm verdade — é que os dois se encontraram num lugar que não era mar nem terra, nem razão nem emoção, mas a fronteira tênue onde um vira o outro. Ali, Poseidon ofereceu o caos fértil das profundezas. Atena ofereceu a estrutura que transforma caos em criação.

E desse encontro improvável, dessa união entre a razão que se abre para o sentimento e o sentimento que encontra direção, foi concebida Glaucípia.

O Nascimento


Mas Glaucípia não nasceu como os outros deuses.

Não emergiu da cabeça de Zeus, como a mãe. Não surgiu da espuma do mar, como Afrodite.

No momento do nascimento, Atena e Poseidon estavam juntos na praia onde, séculos depois, Homero a encontraria. A deusa tocou a testa do deus, e o deus tocou o coração da deusa. E, nesse instante de equilíbrio perfeito, as ondas se abriram e a lua cheia refletiu na areia molhada uma sombra que não era de nenhum dos dois.

Dessa sombra emergiu uma jovem de olhos verde-azulados, pele perolada e cabelos que ondulavam como algas ao vento. Mas, ao contrário das criaturas instintivas do mar, havia em seu olhar um brilho penetrante — o mesmo brilho da mãe quando analisava um problema complexo.

— Eis nossa filha — disse Poseidon, com uma voz que misturava orgulho e espanto. — Nascida não do corpo, mas da união entre o que eu sou e o que tu és.

Atena contemplou a jovem. Em seu silêncio, havia algo que nenhum deus jamais testemunhara: emoção genuína.

— Como a chamaremos? — perguntou.

Poseidon observou os olhos da filha, que mudavam de cor conforme as ondas batiam na praia.

— Os olhos dela têm a cor do mar — disse ele. — Mas o brilho... o brilho é teu.

Atena sorriu — um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas que fez Poseidon lembrar que até as oliveiras florescem.

— Então será Glaucípia — declarou ela. — A de olhos brilhantes como o mar e penetrantes como a coruja. A que verá o que os outros não veem. A que sentirá o que os outros não ousam sentir. E a que ensinará os mortais a unirem essas duas coisas.
A Profecia de Zeus

Zeus, que observara tudo do alto do Olimpo, desceu à praia naquele momento. O rei dos deuses contemplou a jovem e, por um instante, pareceu envelhecido pelo peso da profecia que enxergava no destino dela.

— Esta não será uma deusa como as outras — disse ele. — Não terá templos imponentes nem exércitos de sacerdotes. Mas seu culto será o mais duradouro de todos.

— Que culto é esse, pai? — perguntou Atena.

Zeus apontou para o horizonte, onde o sol começava a nascer.

— O culto dos que buscam compreender a si mesmos. Dos que sentem demais e não encontram palavras. Dos que pensam demais e não encontram sentimentos. Ela será invocada em silêncio, em noites de insônia, em momentos de criação. Poetas a chamarão sem saber seu nome. Psicólogos a invocarão sem conhecer sua existência. E, milênios depois de Troia cair e o Olimpo ser esquecido, ela ainda estará lá — nos livros, nas canções, nos olhos de quem chora lendo um poema.

Poseidon e Atena trocaram um olhar. Pela primeira vez em toda a eternidade, não havia conflito entre eles. Apenas a compreensão de que, juntos, haviam criado algo maior do que qualquer um deles poderia conceber sozinho.

Glaucípia, ainda tentando acostumar-se com a existência, volteu seus olhos cor do mar para Zeus e sorriu para o avô.

E, naquele sorriso, estava contida toda a história que ainda viria — incluindo a noite, séculos depois, em que ela se sentaria ao lado de um poeta cego numa praia da Jônia e sussurraria em seu ouvido as palavras que se tornariam a Ilíada e a Odisseia.

O Que os Poetas Contam


Alguns dizem que, até hoje, quando um escritor encontra as palavras exatas para descrever uma emoção que parecia indescritível, ou quando um terapeuta ajuda um paciente a compreender a própria dor, Glaucípia está presente — invisível, silenciosa, com seus olhos mutáveis observando de algum lugar entre o mar e a mente.

Outros dizem que, nas noites de lua cheia, se alguém sentar à beira-mar com um pergaminho em branco e um coração aberto, pode sentir uma presença suave ao lado. Uma voz fluida que pergunta:

"O que trazes hoje, nas profundezas, para transformarmos juntos em palavra?"

E quem ouve essa voz nunca mais escreve da mesma forma.


Escrito com auxílio de Inteligência Artificial. 



A noite em que o mar aprendeu a cantar

O Encontro na Praia de Jônia

Era uma noite de lua minguante quando Homero, ainda um jovem aedo cego que vagueava pelas praias da Jônia, sentou-se sobre uma rocha para ouvir o mar. Ele já conhecia todas as histórias que os ventos contavam — os feitos de Aquiles, as astúcias de Odisseu, a queda de Troia — mas algo lhe dizia que aquelas históras, contadas aqui e ali nos festivais e nas cortes, eram como fragmentos de um vaso partido: belos, mas incompletos.

Naquela noite, porém, o mar não sussurrava como de costume. Havia uma pausa, uma expectativa no ar salgado. As ondas pareciam conter a respiração.

Foi então que ele sentiu uma presença.

Não era o passo pesado de um mortal, nem o vento que anunciava um deus olímpico. Era algo mais sutil — como se o próprio silêncio tivesse ganhado forma e se sentado ao seu lado na rocha.

— Não temas, aedo — disse uma voz.

Era uma voz suave e fluida, exatamente como a água corrente. Mas não era apenas doce: havia nela uma profundidade que fez Homero sentir, pela primeira vez, que alguém compreendia a escuridão que seus olhos não viam.

— O mar está diferente esta noite — respondeu ele, com a sinceridade dos que não podem ver e por isso sentem tudo com mais intensidade. — As ondas... estão esperando.

— As ondas esperam por ti — disse a voz. — Há muito tempo, as histórias que carregas na memória vivem apenas na superfície. Tu as repetes como um eco repete o som que ouviu na montanha. Mas eu vim te ensinar a mergulhar.

Homero inclinou a cabeça.

— Quem és tu, que falas como o mar e pensas como os sábios?

— Chamam-me Glaucípia — respondeu a deusa. — Sou filha de Poseidon, senhor das profundezas, e de Atena, senhora da sabedoria. Meu domínio é o lugar onde o pensamento encontra a emoção, onde a palavra nasce do sentimento que parecia impossível de expressar. Os poetas que invoco não apenas contam histórias: eles curam quem as escuta, e curam a si mesmos enquanto as compõem.

O Mergulho


Então Glaucípia estendeu a mão e tocou os olhos cegos de Homero. Não para devolver-lhe a visão, mas para conceder-lhe uma visão muito mais profunda.

— Vou te levar ao fundo do mar que existe dentro de ti — disse ela. — Lá encontrarás as emoções que os homens sentem mas não sabem nomear. E, quando voltares, terás as palavras para trazê-las à tona.

Homero sentiu-se afundar, não em água salgada, mas em algo mais vasto: um oceano de memórias que não eram suas, de dores que pertenciam a toda a humanidade, de alegrias tão antigas quanto o primeiro fogo aceso por Prometeu.

Viu Aquiles não apenas como um guerreiro invencível, mas como um homem consumido pela raiva que nascia do amor frustrado — a fúria de quem perdeu aquele que amava e não soube proteger.

Viu Heitor não como o inimigo troiano, mas como um pai que segura o filho nos braços pela última vez, sabendo que o deixará órfão, e ainda assim escolhe lutar porque é isso que um homem faz quando ama sua cidade mais do que a própria vida.

Viu Odisseu não como o astuto sobrevivente, mas como um homem que carrega no peito uma dor tão imensa que todas as ilhas, todas as feiticeiras e todos os ciclopes não passam de distrações para o vazio de não estar em casa, de não ver Telêmaco crescer, de não sentir Penélope ao seu lado na cama vazia.

— Compreendes agora? — perguntou a voz de Glaucípia, que vinha de todas as direções. — A Ilíada não é sobre a guerra. É sobre a raiva que devora o homem quando ele se sente desonrado. É sobre o luto que transforma heróis em feras. É sobre o momento em que Heitor tira o elmo para não assustar o filho — esse instante de humanidade no meio da matança.

— E a Odisseia — continuou ela — não é sobre monstros e deuses. É sobre a saudade. É sobre a mulher que tece e desfaz o sudário para ganhar tempo, porque esperar é a forma mais corajosa de amar. É sobre o filho que cresce sem pai e precisa se tornar homem antes do tempo. É sobre o homem que, depois de vinte anos, ainda acorda estendendo a mão para o lado vazio da cama.

A Tinta que Vem do Mar

Quando Homero emergiu daquele mergulho, amanhecia sobre o mar Egeu. Glaucípia ainda estava ao seu lado, mas agora ele podia vê-la — não com os olhos do corpo, mas com os olhos da alma que ela acabara de abrir.

Ela tinha os cabelos longos e escuros que ondulavam como algas ao vento, a pele perolada como o interior de uma concha, e os olhos... os olhos tinham a cor mutável do mar, verdes quando calmos, cinzentos quando pensativos, e um brilho penetrante que parecia enxergar através dele — mas não para julgá-lo, e sim para compreendê-lo.

Em suas mãos, ela segurava um pequeno frasco de vidro escuro e um estilete de coral branco.

— Esta tinta — disse ela, entregando-lhe o frasco — foi feita com pó de conchas raras e água do mar mais profundo, onde a luz do sol nunca chegou. Ela registrará não apenas as palavras, mas os sentimentos que elas carregam. Quem ler teus versos sentirá o que sentes agora.

Homero tomou o frasco com mãos trêmulas.

— Mas como saberei o que escrever? Como ordenarei tantas visões, tantas dores, tantas alegrias?

Glaucípia sorriu — um sorriso que era, ao mesmo tempo, materno e enigmático.

— Usarás o que herdaste de mim. De Poseidon, a coragem de mergulhar no caos das emoções sem medo de te afogares. De Atena, a sabedoria para dar forma a esse caos, para construir narrativas com começo, meio e fim, para escolheres as palavras exatas — nem uma a mais, nem uma a menos.

Ela ergueu a mão e tocou suavemente a testa do poeta.

— A Ilíada terá a estrutura de um templo grego: simétrica, inevitável, bela. Mas, dentro dessa estrutura, pulsará o coração despedaçado de Aquiles, o desespero de Príamo beijando as mãos do assassino de seu filho, a humanidade de Heitor se despedindo de Andrômaca. Será razão e emoção casadas para sempre.

— E a Odisseia — prosseguiu — terá a forma de uma viagem, mas não uma viagem qualquer: será o mapa da alma humana tentando voltar para casa. Cada ilha, um desafio interior. Cada monstro, um medo a ser vencido. Cada deus, uma força da natureza que existe dentro de nós mesmos.

O Legado

Homero passou os anos seguintes compondo. Não escrevia apenas com a mente, mas com todo o seu ser. Quando descrevia a cólera de Aquiles, sentia o fogo no peito. Quando narrava o reencontro de Odisseu e Penélope, chorava lágrimas que molhavam o papiro.

E as pessoas que ouviam seus poemas sentiam o mesmo.

Guerreiros veteranos da guerra de Troia, ao escutarem a Ilíada, compreendiam finalmente a própria dor que carregavam há décadas. Viúvas encontravam consolo nas palavras de Andrômaca. Filhos que perderam os pais na guerra sentiam-se menos sozinhos ao ouvir a história de Telêmaco.

A arte de Glaucípia havia funcionado: seus poemas não apenas contavam histórias; eles curavam.

Certa noite, já velho e próximo do fim, Homero sentou-se mais uma vez à beira-mar. A lua estava cheia, e as ondas brilhavam como se fossem feitas de prata líquida.

— Está feito, senhora — murmurou ele. — A Ilíada e a Odisseia estão completas.

Do mar, emergiu uma figura. Glaucípia estava ainda mais bela do que na primeira noite — ou talvez Homero, depois de tantos anos mergulhado nas emoções humanas, tivesse aprendido a ver com mais profundidade.

— Não, poeta — disse ela, com sua voz fluida e suave. — Tuas obras estão apenas começando. Elas atravessarão séculos, milênios. Homens que ainda nem nasceram as lerão e se reconhecerão em Aquiles, em Heitor, em Odisseu. Porque as emoções que descreveste não envelhecem: a raiva, o amor, a saudade, o medo, a coragem — tudo isso é o mar eterno que carregamos dentro de nós.

Homero sorriu.

— Então valeu a pena. A cegueira, a pobreza, a vida errante... valeu a pena.

Glaucípia aproximou-se e beijou-lhe a testa.

— Não estiveste cego, poeta. Viste mais do que todos os videntes da Grécia. Viste a alma humana.

E, ao dizer isso, desapareceu nas ondas — mas não completamente. Algo dela ficou para sempre nos versos que Homero escreveu. Algo que, até hoje, quando lemos a Ilíada ou a Odisseia, sentimos: uma voz suave e fluida, vinda de muito longe, que nos convida a mergulhar em nosso próprio oceano interior.

Epílogo


Dizem que, na noite em que Homero morreu, uma mulher de olhos cor do mar apareceu na ilha de Ios para levar sua alma. Dizem que ela o guiou não para o Hades, nem para os Campos Elísios, mas para um lugar especial: uma biblioteca infinita construída à beira de um oceano sem fim, onde todos os poetas que verdadeiramente compreenderam a alma humana passam a eternidade lendo uns para os outros, enquanto as ondas, lá fora, marcam o ritmo de cada verso.

E, se prestares atenção na próxima vez que leres Homero em voz alta, talvez percebas que, entre uma palavra e outra, há um leve rumor de maré. É Glaucípia, ainda sussurrando, ainda inspirando, ainda lembrando a todos nós que a maior de todas as viagens é a que fazemos para dentro de nós mesmos.

Escrito com auxílio de Inteligência Artificial. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Intentona gastronômica pela reconstituição da imanentibilidade sápida


 

    O texto a seguir foi criado como paródia da redação de um aluno, candidato do vestibular da FUVEST, que obteve nota zero na redação, pois o texto produzido apresentava vocabulário e sintaxe muito eruditos, porém sem responder de maneira satisfatória ao tema proposto. 

    Confira na reportagem do G1 a situação do aluno e também a redação original. 


INTENTONA GASTRONÔMICA PELA RECONSTITUIÇÃO DA IMANENTIBILIDADE SÁPIDA

Considerações preliminares

    Perpassa em altivez, pela procela da quotidianidade, o anseio por uma experiência culinária que transgrida a mera subsistência. Entretanto, na era do Antropo-tecno-ceno — tempo em que a indústria alimentar comodifica até o gesto de nutrir-se —, impõe-se ao sujeito-interlocutor a dialética opressiva entre a premência temporal e a degradação simbólica do alimento. É nesse ínterim que o macarrão instantâneo emerge não como simples iguaria, mas como fenômeno a exigir hermenêutica.

    Ferdinand de Saussure, ao preconizar a relação simbiótica entre significado e significante, inadvertidamente lança luz sobre o drama: o macarrão (significante) viu seu significado esvair-se na voragem mercadológica, transmutando-se em sucedâneo cuja teleologia hodierna é a mera eficiência. Sob essa perspectiva, cumpre ao agente reflexivo — aqui denominado cozinheiro-interlocutor — intentar a reconstituição da interioridade gustativa por meio de um rito que se quer libertador.

DOS INSTRUMENTOS 

(OU A MATERIALIDADE COMO IMPERATIVO)

    Antes de adentrar a dialética do preparo, impõe-se a articulação dos artefatos, os quais, em sua aparente banalidade, encarnam estruturas de poder:

    O bloco de farinha desidratada: unidade condensada que, à maneira da monadologia leibniziana, encerra em si a potencialidade de uma totalidade, mas que, na contemporaneidade, jaz fragmentado — não raro em sua própria conformação física — como metonímia da psique coletiva.

    O invólucro-sachê: microcosmo de sabores concentrados cuja violência simbólica impõe ao paladar um regime hegemônico de glutamato monossódico, silenciando as diferenças regionais em nome de uma pretensa universalidade palatável.

    O recipiente térmico: espaço de mediação dialética entre o sólido e o líquido, o frio e o fervente, o sujeito e a técnica.

DO MÉTODO 

(OU A DIALÉTICA DA IMERSÃO LÍQUIDA)

Primeiro movimento: A efeméride da ruptura

    Opera-se a remoção da película protetora (cuja semiótica evoca as camadas de habitus em Bourdieu) e a consequente libertação do bloco farináceo de seu invólucro. Nesse ato, ressoa a intentona pela reconstituição da interioridade: o cozinheiro, ao desnudar o alimento de suas amarras industriais, assume o papel de agente transformador, ainda que tal gesto seja, por vezes, apenas performático.

Segundo movimento: A ebulição como superestrutura

    Despeja-se água em estado de fervura — i.e., momento em que o líquido atinge seu ápice de agitação molecular, evidenciando a dialética termodinâmica — sobre o bloco imerso. A quantidade de água deve obedecer a uma relação simbiótica com a massa, evitando tanto o excesso (que redundaria em esvaziamento eudaimônico do caldo) quanto a escassez (que levaria à unidimensionalidade pastosa). Trata-se, aqui, de um equilíbrio que a tecnocracia dos três minutos tenta normatizar, mas que exige do sujeito-interlocutor um olhar atento às contingências.

Terceiro movimento: A incorporação dos condimentos e a violência simbólica do sachê

    No intervalo de três a cinco minutos — tempo que Michael Sandel, em sua crítica à instrumentalização da razão, poderia associar à compressão capitalista da experiência —, procede-se à adição do conteúdo do sachê. Nesse gesto, trava-se um embate: de um lado, a tentação de submeter-se integralmente ao sabor pré-determinado, consolidando a hegemonia gustativa; de outro, a possibilidade de subverter o status quo mediante acréscimos heterodoxos (ovo, vegetais, proteínas) que restituem à refeição sua dimensão identitária.

Quarto movimento: A consumação (ou o suplício da efemeridade)

    Após a homogeneização dos elementos — processo que, em Saussure, equivaleria à sincronia entre significante e significado —, o macarrão instantâneo atinge seu ápice fenomenológico: a comensalidade. Nesse instante, o alimento, antes fragmentado, converte-se em experiência sensível. Entretanto, como adverte a dialética bourdiana, permanece latente a tensão entre o prazer momentâneo e a consciência da condição precária que tal refeição muitas vezes significa — sobretudo quando sua escolha decorre da impotência reflexiva diante da superestrutura produtiva.

CONCLUSÃO 

(OU A NECESSÁRIA REVISÃO TELEOLÓGICA)

    Diante do exposto, revela-se que o preparo do macarrão instantâneo, longe de ser mero procedimento técnico, constitui um ato passível de leitura ontológica. A cada bloco desidratado que se fragmenta sob a água fervente, reflete-se a tendência contemporânea à fragmentação identitária; a cada sachê aberto, renova-se a luta entre autonomia e heteronomia; a cada garfada, consuma-se, ainda que de modo fugaz, a intentona pela reconstituição da interioridade — ainda que sob a forma do sofrer recôndito que é o saldo amargo de uma refeição solitária às 23h47.

    Em suma: o perdão — ou o macarrão —, quando condicionado pela pressa e limitado pela ausência de recursos, jamais alcança sua grandiloquência plena; resta-lhe a tétrica languidez do que poderia ter sido, mas foi relegado à eficiência.

Modo de preparo: 

1) Ferver água; 

2) Verter sobre o macarrão; 

3) Aguardar 3-5 minutos; 

4) Adicionar o tempero; 

5) Servir-se, preferencialmente com a consciência atormentada pela tecnocracia.*

    Bom apetite — ou, como preferiria o cozinheiro-interlocutor, que a eudaimonia do instante possa, ainda que precariamente, sobrepujar a unidimensionalidade do fast-food.


Escrito com auxílio de Inteligência Artificial.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Eu me permito morrer

Descrição. Pintura em tons de marrom e verde. Uma mulher de cabelos longos e escuros caminha por uma estrada. Ela usa vestido longo de mangas compridas, mas parece estar descalça. As margens da estrada são pequenas elevações cobertas de grama baixa, com árvores esparsas. Fim da descrição. 


 Eu me permito morrer 

para tudo aquilo que não me cabe. 

Para mundos vãos 

que nada trazem de paupável. 


Minha busca pelo pertencer

não abre mão da terra firme, 

de seguir por minha trilha 

com os pés em solo vivo. 


Os universos outros 

são paralelos à vida do pão e da terra.

Eles encantam, inspiram

mas apenas passos firmes fazem o caminho. 


Eu me permito morrer 

Para mundos que emulam

trechos por onde passei 

 onde não mais vou estar.


O caminho precisa de norte. 

A vida precisa seguir

sem prisões imaginárias. 

Sem belas imagens efêmeras. 


E me permito viver

Para seguir meu caminhar

 cultivar a terra onde me encontro 

e apreciar pequenos mundos 

particulares.


Maíra Cordeiro 25/11/2025

Intersecções entre as obras de Vigotski e Luria e a obra de Trotsky

 Vigotsky, Luria e Trotsky. Principais pontos de intersecção 1. A concepção do novo homem socialista Trotsky: Em "Literatura e Revoluçã...