Sanatório Serebryanii Bor, Moscou, 1932
Camarada Trotsky,
Li seus textos com a atenção de quem sabe que cada palavra, em nossa época, pode custar a liberdade ou a vida. Mas li também com a alma de quem busca, na teoria marxista, instrumentos para compreender o fenômeno humano mais complexo: a formação da consciência.
E encontrei em você algo que os burocratas que agora controlam o partido nunca compreenderão: o movimento dialético como método vivo, e não como fórmula morta.
O que me atraiu em sua obra — e que tentei, à minha maneira, aplicar à psicologia — é essa intuição fundamental de que o desenvolvimento não é a repetição mecânica de estágios, mas sim uma compressão de tempos, um salto qualitativo onde o que parecia atrasado pode se tornar, pela força da contradição, a pedra angular do novo.
Você chamou isso de revolução permanente na política. Eu chamo, na psicologia, de zona de desenvolvimento iminente: o espaço onde o que a criança ainda não pode fazer sozinha, ela já pode fazer com ajuda, e amanhã fará por si mesma. É a mesma lógica: o futuro já se anuncia no presente, na forma de uma contradição entre o que se é e o que se pode vir a ser.
Sabe o que mais me marcou em você? Não foi apenas a ousadia política, mas algo mais sutil: você levou a sério a ideia de que a revolução deve formar um novo ser humano. Não como abstração moralista, mas como problema científico concreto. Em Literatura e Revolução, você escreveu sobre a possibilidade de o homem tornar-se senhor de seus próprios sentimentos, de estender "os fios da vontade" até os recônditos ocultos de seu ser. Quando li isso, senti que não estava sozinho.
Eu estava, naquele momento, tentando compreender como os instrumentos culturais — a linguagem, os signos — transformam a própria estrutura da psique. E você já apontava para esse horizonte: o homem não apenas transforma a natureza externa, mas, ao fazê-lo, transforma a si mesmo. É a mesma dialética.
Preciso lhe dizer algo que me dói, mas que você merece saber. Nos anos 1920, antes do exílio, citei você abertamente. Em Psicologia Pedagógica, em Psicologia da Arte, suas palavras estavam lá, como faróis. Mas hoje, em 1932, enquanto escrevo Pensamento e Linguagem já doente, com a tuberculose que a falta de condições básicas agravou, não posso mais mencionar seu nome. Se o fizer, meu trabalho será destruído, meus colaboradores — Luria, Leontiev — serão presos, e tudo o que construímos será enterrado sob o peso da burocracia.
Isso me envergonha? Não. Me enfurece. Porque aprendi com o próprio método dialético que sobreviver para continuar o trabalho não é covardia; é estratégia. A verdade não morre quando é silenciada; ela se refugia nos interstícios, esperando o momento de florescer. E florescerá. Sei disso.
Deixe-me lhe dizer, camarada, o que penso de sua obra e do que ela representa para mim:
Você compreendeu que o marxismo não pode ser um sistema fechado. Para os burocratas, tudo está resolvido: o homem é um conjunto de reflexos, a consciência é um epifenômeno, a revolução já se realizou e agora só resta administrar. Para mim, como para você, o marxismo é um método para abrir problemas, não para fechá-los. A psicologia que tentei construir parte exatamente dessa premissa: o ser humano é um projeto inacabado, e a educação — a formação da consciência — é o campo onde esse projeto se realiza ou se trai.
Você me ensinou algo sobre a relação entre indivíduo e história. O stalinismo finge que o indivíduo é nada diante do coletivo. Você, ao contrário, mostrou que a revolução só tem sentido se formar indivíduos livres, capazes de autodeterminação. É o que tento mostrar em minha obra: a consciência não é uma simples reflexo do social, mas uma interiorização — um processo ativo onde o sujeito se apropria dos instrumentos culturais e, ao fazê-lo, torna-se capaz de agir sobre o mundo e sobre si mesmo.
E há algo mais, camarada, que poucos notam. Você era judeu, como eu. E num mundo que nos perseguiu por isso, ambos buscamos no universalismo da revolução uma forma de transcender a marca que nos queriam impor. A burocracia stalinista, com seu antissemitismo disfarçado de "combate ao cosmopolitismo", jamais perdoará isso em você — nem em mim, quando ousarem me reler depois de minha morte.
Se me permite, camarada Trotsky, quero lhe fazer uma confissão final.
Há quem diga, hoje e no futuro, que minha obra pode ser lida sem referência a você. Que fui "apenas" um psicólogo soviético, um "marxista-leninista" dentro dos limites aceitáveis. Que minhas citações a você foram um acidente de juventude, depois superado.
Isso é mentira. E saberei, de onde estiver, que a verdade virá à tona.
Não porque eu ou você precisemos de reconhecimento pessoal. Mas porque a verdade científica — como a verdade revolucionária — é uma só: o desenvolvimento humano não é linear, nem previsível, nem administrável por burocratas. É um processo dialético, cheio de saltos, crises e superações. E quem compreendeu isso, na política, foi você. Quem tentou aplicar isso à psicologia, na medida de suas forças e sob a mira do inimigo, fui eu.
Que os que vierem depois — os psicólogos, os educadores, os revolucionários — saibam ler nossa obra como ela realmente é: não dois sistemas separados, mas duas faces do mesmo esforço para compreender como a dialética se faz carne na história e na subjetividade humana.
E que saibam, também, que silenciar um nome não apaga uma ideia. As ideias têm o hábito incômodo de sobreviver — e de, quando menos se espera, fazer a revolução por dentro dos próprios lugares onde tentaram enterrá-las.
Com o abraço de quem reconhece, no outro, um companheiro de trincheira,
Lev Vigotski
1932 (em um mundo onde pudesse dizer isso em voz alta)"
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Obra de ficção elaborada com auxílio de I.A.

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