Coyoacán, México, 1933 (pouco antes da morte de Vigotski)
Meu caro Lev Semiónovitch,
Escrevo-lhe sabendo que esta carta pode nunca chegar às suas mãos, e que, se chegar, lê-la pode lhe custar caro. A burocracia stalinista não perdoa correspondências com seus inimigos declarados. Mas arrisco. Pois tenho acompanhado, à distância, seus trabalhos — e sinto que há entre nós algo mais do que uma coincidência de temas. Há uma afinidade de método.
Você não me conhece pessoalmente. Eu, no exílio, tenho lido o que posso de sua obra — Psicologia Pedagógica, Psicologia da Arte, os artigos sobre defectologia. E preciso lhe dizer: você está fazendo, no campo da psicologia, o que tenho tentado fazer no campo da política. Não me refiro a conclusões idênticas — pois cada ciência tem suas mediações específicas —, mas a um modo de aplicar o materialismo dialético que os burocratas de Moscou jamais compreenderão.
O que vejo em sua obra
Os stalinistas reduziram o marxismo a um evolucionismo raso: tudo se desenvolve por estágios previsíveis, tudo é determinado "pelas condições materiais" como se fossem correntes. Eles esvaziaram a dialética de sua alma: a contradição, o salto, a compressão do tempo.
Você, ao contrário, compreendeu algo fundamental. Quando fala da zona de desenvolvimento iminente — aquilo que a criança ainda não pode fazer sozinha, mas já pode fazer com ajuda —, você está descrevendo exatamente o que eu chamo de revolução permanente. O futuro não vem depois, numa sucessão mecânica. Ele já se anuncia no presente, como uma contradição entre o que se é e o que se pode vir a ser. A ajuda externa — o professor, o instrumento cultural, a linguagem — é a vanguarda que puxa o desenvolvimento, assim como o partido revolucionário puxa a classe trabalhadora.
Os stalinistas querem uma psicologia de reflexos condicionados, como Pavlov. É mais fácil controlar um cachorro que saliva do que um ser humano que pensa. Você, ao contrário, colocou a linguagem no centro. E a linguagem é o instrumento dos instrumentos — é ela que permite ao homem mediar sua relação com o mundo e consigo mesmo. Pois bem: isso é profundamente marxista. Marx dizia que o homem se diferencia do animal quando começa a produzir seus meios de vida. Você acrescenta: e também quando começa a produzir significados. E eu acrescento: a revolução socialista é exatamente o momento em que a humanidade toma consciência de sua própria produção histórica e decide produzi-la de forma racional e livre.
Nossas diferenças, que não nos separam
Não quero que pense que vejo apenas concordâncias. Haveria, em uma conversa franca, pontos de tensão.
Você, me parece, deposita enorme fé na educação como força transformadora. Eu, tendo visto a burocracia tomar conta das escolas e transformá-las em aparelhos de doutrinação, sou mais cético. A educação não é neutra, mas também não é autossuficiente. Sem uma transformação radical das relações de produção, a melhor pedagogia se torna servil ao Estado burocrático.
Outra diferença: você confia na mediação pacífica do desenvolvimento — a criança avança com ajuda, gradualmente. Eu, na política, vejo que as classes dominantes não cedem espaço voluntariamente. A revolução é violenta não porque amamos a violência, mas porque a classe dominante a impõe como única resposta à nossa organização. A zona de desenvolvimento iminente, na luta de classes, se chama greve geral, insurreição, guerra civil.
Mas essas diferenças são de campo de aplicação, não de método. Você estuda o indivíduo em desenvolvimento. Eu estudo a sociedade em revolução. Em ambos os casos, a pergunta é: como o novo emerge do velho, não por acúmulo gradual, mas por salto qualitativo? E em ambos os casos, a resposta envolve um instrumento que faz a mediação: para você, a linguagem e os signos; para mim, o partido revolucionário e a teoria crítica.
O segredo que já não posso calar
Preciso lhe dizer algo que os arquivos, um dia, confirmarão. Eu sei que você me citou em seus primeiros trabalhos. Em Psicologia da Arte, há uma passagem longa de Literatura e Revolução — aquela sobre o homem tornar-se senhor de seus próprios sentimentos. Você a citou com aprovação. Sei também que, nas edições mais recentes sob censura stalinista, essas citações desapareceram. Não se culpe por isso. Sobreviver para continuar o trabalho não é covardia. É estratégia.
Mas quero que saiba, mesmo que nunca possa responder a esta carta: sua obra é, para mim, a prova de que o marxismo não é um sistema fechado. Os burocratas querem fórmulas prontas. Você, como eu, quer problemas abertos. Eles querem um homem-máquina, previsível, administrável. Você quer um ser humano que se apropria dos instrumentos culturais e, ao fazê-lo, se torna capaz de transformar o mundo e a si mesmo.
Isso é revolucionário. Mesmo que você nunca diga isso em voz alta.
O que lhe peço, ao fim
Não responda a esta carta. Queime-a, se for preciso. Mas guarde uma coisa no coração: não estamos sozinhos. A história tentará nos separar — a você, como psicólogo "apolítico"; a mim, como "inimigo do povo". Mas o método dialético é teimoso. Ele floresce onde menos esperam.
Continue seu trabalho, camarada. A psicologia que você está construindo será, um dia, o complemento necessário da revolução política. Pois de que adianta transformar as fábricas e os sovietes, se dentro do peito humano ainda habita o velho homem, com seus medos, suas submissões e seus afetos domesticados?
Você está plantando sementes em solo congelado. Mas o degelo virá.
Com fraterno abraço de luta,
L.D.
Coyoacán, 14 de maio de 1933
P.S. — Luria me contou, por meio de um visitante comum, que você está doente. A tuberculose é uma peste que a revolução também precisará vencer. Mas enquanto não vencemos, peço-lhe: sobreviva. Sua obra precisa de você. A história precisa de você. E eu, do exílio, preciso saber que não sou o único a acreditar que a dialética pode habitar até mesmo os becos mais escuros da mente humana.
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Carta fictícia, elaborada com auxílio de I.A.

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